Conversei principalmente com pais e familiares. Uma avalanche de informações e histórias desabaram na minha cabeça. Desabaram é a palavra certa. Descobri um mundo de injustiça e de preconceito. Porque afinal eu não sabia disso ? Na minha imensa ignorância, achava que esses eram assuntos superados. Não havia preconceito nem tabus. Porque eu achava isto ?
No meu tempo de escola não me lembro de nenhum deficiente. Nenhum. Lembro-me de um rapaz surdo que era nosso amigo no bairro em que morava. Ele era muito legal e até dançava em bailinhos conosco. Essa foi minha experiência com a questão da deficiência. Se eu conhecia apenas uma pessoa com deficiência auditiva e ele era bem aceito pelos amigos, pela escola, então isso me convenceu que não existiam problemas. Quem sabe eu até pensasse que nem existiam tantos deficientes assim ! Eu não via, então não existia.
Quando as famílias me relataram os fatos que ocorriam a partir do nascimento de seus filhos ou parentes, me senti vivendo na pré-história. Para falar a verdade é assim que me sinto até hoje.
Bem, não vamos ser assim tão pessimistas...claro que a coisa andou. É só dar um pulinho na Reatech para perceber isso. Melhoramos muito no campo da medicina, das próteses, das leis... mas como tinha dito, meu interesse é sempre o humano e aí é que a porca torce o rabo.
Quero declarar também que existe muita generosidade, muita gente bacana, mas ainda estamos longe de habitar num planeta justo.
Até agora temos agido assim: vou esperar perder minha perna ou meu braço ou a minha visão para me preocupar com isso. Por enquanto não é comigo !
Para resumir a minha história, a peça de teatro não saiu ainda, mas outros trabalhos começaram a surgir. Imaginei que se pudéssemos fazer com que uma pessoa sentisse, por alguns instantes, o que um deficiente sente, conseguiríamos alcançar diretamente o coração através da sensibilização. Ex: taparmos os olhos de uma pessoa e ela tentaria fazer coisas simples do dia-a-dia, ou então, sentarmos uma pessoa numa cadeira de rodas e mostrar como é difícil um simples passeio. E assim vai. Nasceu um trabalho que chamamos de vivência sensorial. Essa é uma outra história e contarei da próxima vez.


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